
A contaminação da ração por micotoxinas continua sendo um desafio importante na produção animal, exigindo o uso de soluções incorporadas à ração para mitigar seus efeitos negativos. Há uma gama de produtos disponíveis, com diferentes modos de ação e eficácia. Frente aos novos desafios da cadeia produtiva, é necessário evoluir de sequestrantes básicos para soluções mais abrangentes.
As micotoxinas são metabólitos secundários produzidos por fungos como Aspergillus, Penicillium e Fusarium, que frequentemente contaminam ingredientes de rações. Existem mais de 400
micotoxinas identificadas, que variam em estrutura e toxicidade. Estudos recentes mostram uma prevalência entre 60% e 80% das culturas analisadas, com contaminações múltiplas sendo comuns, especialmente por desoxinivalenol (DON), zearalenona (ZEA) e fumonisinas (FBs).
Mesmo abaixo dos níveis considerados aceitáveis, as micotoxinas podem causar efeitos adversos nos animais, possivelmente por interações sinérgicas entre elas ou com outras toxinas. Diante das mudanças climáticas, que podem favorecer a produção de toxinas, e maior conhecimento sobre sua toxicidade, torna-se imprescindível adotar novas abordagens. Três fatores se destacam: a alta prevalência global, o surgimento de micotoxinas/metabólitos mais tóxicos, e a complexidade da contaminação por mais de uma micotoxina.
As micotoxinas mais preocupantes são aflatoxinas, DON, ocratoxina, ZEA, FBs e toxina T-2. Os efeitos associados variam de distúrbios crônicos, com reduções da função intestinal, consumo de ração e desempenho, até toxicoses agudas. A toxicidade depende do tipo de micotoxina, dose, tempo de exposição, estado de saúde, idade e outros fatores.
Diversas estratégias vêm sendo utilizadas para mitigar os efeitos das micotoxinas. A adsorção é uma das abordagens mais comuns, usando compostos como argilas ou polissacarídeos das paredes celulares de microrganismos. Esses sequestrantes devem ser eficazes, seletivos e seguros quanto à presença de contaminantes.
Diante da complexidade da multicontaminação e da presença de outras toxinas, a seleção e combinação criteriosa de adsorventes pode ampliar a proteção. A mais nova tecnologia no mercado é o uso de microrganismos ou sistemas enzimáticos capazes de biodegradar as micotoxinas antes da absorção no trato gastrointestinal. Essa abordagem é específica, irreversível e não gera resíduos tóxicos.
A ZEA e seus metabólitos requerem atenção especial, pois afetam negativamente a reprodução animal por seus efeitos estrogênicos. Estudos apontam que alguns metabólitos derivados podem ser até 60 vezes mais tóxicos que a molécula original. Cepas de Bacillus subtilis demonstraram capacidade de degradar ZEA e seus principais metabólitos em até 99,9% em condições in vitro, reforçando o potencial desses probióticos também como solução biodegradativa. A bioproteção é uma abordagem complementar importante que envolve compostos com propriedades antioxidantes, imunomoduladoras ou que reforçam a integridade intestinal. Em leitões expostos a DON, o fornecimento com cepas exclusivas de bacillus promoveu redução da concentração da toxina no soro, resultando em melhora do ganho de peso comparado ao grupo controle (sem administração do aditivo). A hipótese principal é que esses microrganismos atuam reforçando as junções da barreira intestinal, limitando a translocação das toxinas.
Um estudo recente realizado no Brasil com leitoas pós-desmame evidenciou os efeitos positivos dessa estratégia. Foram utilizados 180 animais, divididos em 3 grupos: Controle (T1) – ração sem contaminação por micotoxinas e sem inclusão do aditivo antibiotoxinas; controle negativo (T2) – ração contaminada com micotoxinas e sem inclusão do aditivo; grupo controle positivo (T3) – ração contaminada e com inclusão de 0.15% do aditivo antibiotoxinas. O período experimental durou 42 dias. A contaminação com micotoxinas (DON ~1000 ppb e ZEA ~500 ppb) ocorreu entre os dias 7 e 29. Os resultados mostraram que a presença das micotoxinas na dieta ativou a resposta imune das leitoas (elevação na concentração de IL-6 e IgG), e alterou a morfometria da vulva (maior volume). A inclusão do aditivo antibiotoxinas abrandou tais respostas advindas do desafio e ainda beneficiou a saúde intestinal. As leitoas no T3 em relação àquelas do T2 apresentaram: menor peso do trato reprodutivo e volume da vulva; menor concentração de IL-6; menor contagem de células caliciformes; redução na concentração de DON no soro (- 21%). A pesquisa confirma os efeitos negativos da ZEA e do DON sobre o sistema reprodutivo, imunidade, inflamação e morfologia intestinal, e destaca o potencial de soluções microbianas para mitigar esses impactos.
Diante da presença contínua de micotoxinas e de múltiplos fatores de estresse nos sistemas de produção, a combinação de estratégias é fundamental. Soluções que associam adsorção, biodegradação e bioproteção oferecem uma abordagem integrada para minimizar os impactos das micotoxinas, promovendo melhor saúde, bem-estar e desempenho animal.
Autora: Dra. Clarisse Techer
Mestre em Microbiologia, possui experiência em nutrição de leitões e desenvolvimento de métodos imunológicos para detecção de toxinas. Doutora em Ciência e Tecnologia de Leite e Ovos em parceria com o INRAE. Atualmente é Gerente de Categoria Monogástricos em uma empresa do setor de nutrição animal.